terça-feira, 6 de junho de 2017

FALANDO COM VOCÊS

E, falando com vocês, falo com todos os meus queridos amigos, cantores, instrumentistas, maestros,gente do teatro,das artes plásticas, enfim, interminável gama de artistas que engrandeceram minhas colunas jornalísticas.

TEMPOS DE REPÓRTER           
Através da minha condição de repórter que me foi atribuída pelo saudoso amigo , advogado e jornalista Paulo Quintino dos Santos,ainda muito inexperiente, entrevistei gente importante.Eram matérias publicadas na extinta revista "Comércio & Indústria", de propriedade do próprio Paulo.Dos mais destacados trabalhos, não me esqueço da polêmica apresentação de Tônia Carrero em "Navalha na Carne", de Plínio Marcos.Incompreendido, o texto gerou situações constrangedoras,em que os intérpretes sofriam agressões(até físicas), por parte dos que se diziam defensores da moral, etc., etc. Eu, ao contrário, considerei "Navalha na Carne" uma espécie de advertência à prostituição.Qualquer jovem que a visse, jamais pensaria em adotar pernicioso caminho para ganhar a vida.Enfim,por determinação do chefe, procurei contacto com a notável atriz e ela me recebeu com a dignidade que lhe é peculiar,falando-me das dificuldades enfrentadas  na consagradora performance. Publicada uma crítica por mim assinada no "Estado de Minas", -ainda estudante de Direito- fui severamente repreendido pelo prof.Alberto Deodato,  que, definitivamente, considerava aquilo uma coisa de baixo teor.Mas...a vida é assim!

Paulo Autran, Juca de Oliveira, Othon Bastos, Maria Fernanda, Isolda Cresto, Eva Todor, o grande pintor Delpino,integram o meu trabalho inicial na revista que durou pouco e, infelizmente,não consigo encontrar os  exemplares que teria guardado...

Mas, o que me propiciou destaque, foi a cobertura que fiz de "Um Bonde Chamado Desejo"de Tenesse Williams,  protagonizado pela adorável Maria Fernanda e um elenco de primeira qualidade, com Othon Bastos e Isolda Cresto.Assisti a todas as récitas, apresentadas no Teatro Marília,emocionando-me sempre com o desempenho de todos eles!

Mais recentemente, dividi a música com o teatro.Sempre convidado por Pedro Paulo Cava, minhas críticas endereçadas aos eventos do  Teatro da Cidade,  ganharam fôlego.Graças aos empenhos do talentosíssimo Cava, ademais empreendedor de realçada qualificação profissional,as atrações oferecidas alcançaram altaneiro patamar.Impossível apontar a melhor.No entanto, para mim,"A Estrela Dalva" superou as mais otimistas das expectativas!           Voltado quase que exclusivamente para a música erudita,conversei com muita gente importante.Principalmente Nelson Freire que conhecia desde os tempos em que eu passava férias ginasiais em Boa Esperança,a   convite de amigos-colegas, cujo pai "seu" Zezinho Siqueira,era proprietário de uma magnífica fazenda cafeeira, na região.

Graças aos convites de Zezé e Ronei Filgueiras, reiteradamente frequentei seu lindo teatro,"Domus Aurea", no Retiro das Pedras.Tantas as oportunidades de assistir o melhor, que não poderia mencioná-las na sua totalidade.Dentre as mais significativas, sem dúvida, as apresentações do próprio Freire e de Frédéric Meinders,de rara genialidade pelas transcrições para o piano de obras sinfônicas  ou líricas.Notável!!!



A ÓPERA NA MINHA VIDA

Ainda adolescente, acompanhava Maria Helena Buzelin, saudosa irmã, por onde fosse ensaiar.Não entendia a ópera.Considerava algo esquisito, até mesmo meio ridículo.O tempo, entretanto, ensinou-me o contrário.Acabei admirando o gênero, quando assisti o "Galo de Ouro", de Stranvinski,no Municipal do Rio.Encantei-me com os cantores, soprano Diva Pieranti e o barítono Paulo Fortes.E não foram poucas as vezes que ia com o notável maestro e professor Luiz Aguiar, assistir às temporadas no magnífico teatro de Juiz de Fora, quando aqui só existia o "Francisco Nunes".Teatro de emergência, até que se concluísse o nosso portentoso Municipal que acabou se transformando no Palácio das Artes.

Ainda que improvisado, o "Chico Nunes", sem dúvida, representa rica memória da nossa cultura.Palco de célebres apresentações teatrais, recebia ícones das nossas ribaltas, tais como Bibi Ferreira,Eva Todor, Tônia Carrero, Paulo Autran, Adolfo Celli,Cacilda Becker,a dupla Dulcina & Odilon,Juca de Oliveira,Aracy Balabanian  além de outros, e os artistas locais, de prestígio nacional.Dentre eles, Jonas Bloch, Wilma Henriques,Jota D'Angelo,Elvécio Guimarães,Octávio Cardoso,Haydèe Bittencourt,dentre tantos de difícil relacionamento.

Em grande estilo, tínhamos a Sociedade Coral de Belo Horizonte, com a incumbência de fazer valer longas temporadas de ópera e balé que eram levadas no "Francisco Nunes",com êxito.De um dos seus fundadores o cantor e engenheiro Pery Rocha França, aos maestros Francisco Nunes, Asbrúbal Lima, assim como Sebastião Vianna e, mais tarde o insigne Sérgio Magnani, pilares desta corajosa edificação, o  desfile de muitos que contribuíram para o seu engrandecimento.Muito se  deve também ,ao notável tenor João Decimo Brescia, na condução daquela instituição.Cantores, ao mesmo tempo espécie de "empresários", apenas por ideal, procuravam valorizar os nossos talentos.Refiro-me a Wilson Simão e ao Murilo Badaró, possuidores de belíssimas vozes e  talento para o palco. E, assim, foram aparecendo intérpretes de fôlego, ao mesmo tempo em que se estabelecia intercâmbio com o Municipal Carioca. Sem dúvida, o tenor Assis Pacheco pode ser apontado como um dos pilares de tais empreendimentos, não só como cantor, mas, regisseur e cenógrafo. O balé, indispensável à ópera, conduzido por Carlos Leite  e Klauss Vianna, respondia pelo êxito de espetáculos que conferiram hegemonia nacional a Belo Horizonte, ao lado do Rio e de S.Paulo!

A orquestra, sob os cuidados da Sociedade Mineira de Concertos Sinfônicos, constituiu a continuidade dos Corpos Estáveis do nosso Theatro Municipal, demolido na década de l940.À frente de todas as idéias para que não houvesse solução de continuidade da apresentação da música erudita em geral, desponta-se a insuperável figura de Clóvis da Gama Salgado. Político de nobilíssimas referências, homem de ilibada conduta e amor à  cultura,soube exercer de maneira exemplar,a direção do Ministério da Educação e Cultura, assim como governou Minas Gerais com eficiência e probidade.

Coube ao meu digno pai, maestro Francisco Buzelin, responsável pela dita Sociedade de Concertos Sinfônicos, assim como ao não menos digno e admirável cantor  Hermann von Tiesenhausen, responderem pela preservação da orquestra e do coral, a partir da sua transferência para o novo teatro, o Palácio das Artes, inaugurado em l970.Graças ao proficiente governo de Israel Pinheiro foi possível a conclusão de gigantesca obra, readaptada pelo engenheiro Rocha França , credenciado auxiliar de JK pela construção de Brasília.



Eis que o Palácio das Artes, inserido na Fundação"Clóvis Salgado", responde pela magnitude de montagens líricas das mais portentosas.Vale aqui,- em se tratando de ópera- uma homenagem ao incomparável diretor,  cenógrafo e arquiteto, o grande Raul Belém Machado, cujo falecimento representa irreparável perda para o teatro operístico.



Responsável pelas temporadas líricas, a Sociedade Coral, além de revelar novos talentos, trouxe do exterior nomes como os de Benamino Gigli, Pia Tassinari, Ferruccio Tagliavini, Tito Schipa além da bailarina Margot Fountein que dividiam o palco do "Chico Nunes" com celebridades nacionais e os promissores intérpretes locais. Seis a oito óperas, eram levadas a efeito por ano, em duas ou mais récitas cada.Alguns dos nossos artistas alcançaram prestígio nacional e internacional,projetados que foram pela Sociedade Coral.
Além das óperas, as operetas compunham as temporadas. Loas à memória do insigne maestro João Cavalcanati,o mais aclamado  dos realizadores  de tais espetáculos.

CULTURA ARTÍSTICA
Paralelamente às atividades das Sociedades Coral e de Concertos Sinfônicos, a Cultura Artística de Minas Gerais respondia pela apresentação de excelentes concertos e recitais, congregando atrações internacionais e nacionais.Voltada para a música camerista, constitiu fator de enriquecimento  sócio cultural, hoje, infelizmente, de apagada memória.
De tais apresentações, participei com muito entusiasmo, em geral no portentoso auditório do Instituto de Educação, das mais portentosas edificações do país, totalmente vandalizada por pichações.Inconcebível que hajam pessoas que defendem seus autores,destruidores do patrimônio público e particular. Odiados criminosos, considerados dignos de atenção e tolerância por seus defensores, vestidos de falsa intelectualidade e total desconhecimento do que seja o estado de direito de uma democracia. Me poupem, pelo amor de Deus!!!





sexta-feira, 2 de junho de 2017

IMPERDÍVEL RECITAL: DIRK BOVENDORP E JOSÉ CARLOS LEAL NO MTC 2










Ronaldo Fraga, José Carlos Leal e Dirk Bovendorp promovem jantar solidário, no Minas II,  em prol do Projeto Ammor
Evento com 100% da renda revertida para projeto da médica Irene Adams terá jantar com pratos da culinária holandesa e recital de piano com músicas de Beethoven no dia 8 de junho
     No próximo dia 8 de junho de 2017, quinta-feira, a partir das 19 horas no restaurante do Minas II (Avenida Bandeirantes, 2323, Mangabeiras), o estilista Ronaldo Fraga e os músicos José Carlos Leal e Dirk Bovendorp se juntam a  médica holandesa, radicada no Brasil, Dra. Irene K. Adams para realizar um jantar beneficente em prol do Projeto Ammor (www.ammor.org.br).
O objetivo é arrecadar fundos para apoio e manutenção dos trabalhos educativos e sociais no resgate e promoção humana de pessoas excluídas ou em desvantagem social do Projeto Ammor – Ação Multiprofissional com Meninos em Risco.
Nas atrações da noite beneficente, menu de delicias da culinária holandesa regada a boa bebida e mesa de doces e cafés. Tudo embalado pelo recital de piano que inclui as obras de Beethoven.
A adesão beneficente é de R$ 100,00, 100% revertido ao projeto Ammor. Para comprar o ingresso, acesse www.ammor.org.br. Mais informações através do telefone (31)   3444-3877 e do email contato@ammor.org.br
SERVIÇO __________________________________________________________________
Jantar Solidário do Projeto Ammor
Data: 8 de junho de 2017 - quinta-feira
Horário: 19 horas
Local: Restaurante do Minas II (Avenida Bandeirantes, 2323, Mangabeiras)
Investimento: R$ 100
Informações: Dra. Irene Adams, (31) 3444-3877 e drairenek@gmail.com



segunda-feira, 29 de maio de 2017

RETORNO MUITO ESPECIAL...

Myrian Dauelsberg

25 de mai (Há 4 dias)
para mim
 Jose Carlos querido
Adorei o seu blog. Parabens pela iniciativa!!!!!!!!!!!
Mais do  que nunca necessitamos de espaços e pessoas inteligentes escrevendo sobre musica clássica! Sem querer ser uma pitonisa de Delfos, estou prevendo um grande sucesso para o seu blog Vida Longa para voce! Com Carinho Myrian
MYRIAN DAUELSBERGPRESIDENTEmyrian@dellarte.com.br 
R. Marquesa de Santos, 16 Laranjeiras
22.221-080  Rio de Janeiro  RJ Brasil
+55 21 3235 8500  dellarte.com.br



Querida Myrian: não há  pitonisa de Delfos do Monte Parnaso (Grécia), capaz de maior profecia que supere suas palavras. Quero, assim dizer que o meu êxito já se configura, na medida em que Você  comparece neste blog que ora inauguro, para falar da música.Estou muitíssimo honrado , todavia, sem quaisquer surpresas da sua delicadeza.Ainda que não me sinta merecedor, sem modéstia, devo concluir que o seu incentivo decorre, acima de tudo, da sinceridade que lhe é peculiar. Para ser objetivo, considero-me privilegiado  na condição de seu amigo e admirador.Deus a abençõe, com as graças da nossa Sta. Terezinha,a mais bela flor dos Céus! Meus cumprimentos extensivos a sua família, de modo especial ao Cláudio que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente.Beijos, com os votos de saúde, paz e êxito crescente.Zecarlos.

ELIZETH CARDOSO (1920-1990): A" DIVINA" CRIATURA TÃO SIMPLES





A década de 1960 começava e,nas "Paradas de Sucesso", tão comuns naquela época, estourava o nome de Elizeth Cardoso,com "A Canção de Amor", de Elano de Paula e Chocolate. Surgiu o LP assim denominado, projetando a cantora que já ostentava alguma notoriedade radiofônica. Algumas vezes, nalguns filmes da Cinelândia, ela atuava como se pôde ver em "Pista de Grama", numa das suas imortalizadas performances defendendo algo do "poetinha maior" Vinícius de Moraes.

Já se sabia dela,-quase no anonimato - ao lado de Grande Otelo, fazendo a "Boneca de Piche" de Ari Barroso, encantando não só pela voz como pela personificação do pequeno, mas cativante papel. Ouvindo-a pelo rádio, não tive a menor dúvida de estar diante da mais empolgante intérprete da canção popular brasileira. Procurei identificá-la e dizia que , um dia, haveria de beijar-lhe a face, tal a minha admiração!

Ocorreu, então, que uma sobrinha da minha saudosa cunhada Lucy, sabendo da minha pretensão, teria como apresentar-me à Elizeth, o que não acreditei, achando que talvez fosse uma brincadeira... Por duas semanas consecutivas, deixei de atender ao convite, até que, um dia, fui com ela à casa de Marilu, artista da Rádio Inconfidência que, inclusive, já conhecia. 

Sem a projeção de quem fazia carreira em São Paulo ou no Rio, ainda assim, Marilu dispunha de uma espécie de fã-clube que a "adorava", com muita razão. Além de dominar o gênero popular, alguma vez, sob os estímulos do emérito maestro Ângelo de Freitas encarnou "Cio-Cio-san" da ópera "Madame Butterfly" de Puccini, numa montagem  apreciável que ocorreu no auditório do Colégio  Izabela Hendrix, onde também celebridades como o violonista Segóvia se apresentaram. Tempo em que esta cidade era mesmo vergel, detentora de certa hegemonia, notadamente lírica, do que falarei oportunamente.

Conduzidos pelo marido de Marilu, o estimadíssimo Sinésio, dono de uma distribuidora de café na rua Santa Catarina, fomos num fusca que, numa velocidade de Fórmula 1, seguiu pela rua Pe. Eustáquio, até o Carlos Prates e, lá, chegamos.

Tudo aquilo ainda me parecia uma brincadeira, Um trote de bom gosto...Mas, qual a surpresa! 

Ao entrar na casinha tão simples e acolhedora, logo pude visualizar num sofazinho, assentada despretensiosamente, ELIZETH CARDOSO. Ela logo disse: "...é esse o moço que tem dado bolo?Que já deveria ter vindo há mais de duas semanas?"

Timidamente, muito sem graça, desapontado, com um sorriso amarelo e as mãos geladas, cheguei-me diante dela e não tive coragem de cumprir a minha promessa de que lhe daria um beijo no rosto. Ocorreu, justamente o contrário. Elizeth abraçou-me,com um fraternal beijo no rosto. Quase caí duro!!! Algo que marcou a minha vida para sempre.

Ao lado dela, Lourdes, sua companheira de luta que me foi apresentada como sua irmã. 

No mesmo sofá, uma senhora de mais idade, muito simples, sorridente e receptiva, olhava para mim com ternura. Era a dona Moreninha, mãe de Elizeth, chamando-me de "filho". Dotada de incrível sensibilidade, curiosa  poeta primitiva  e repentista. Relutava em acreditar que a televisão fosse "verdade". Para ela, cantor mesmo, era Cauby Peixoto. 

Oriunda da Bahia, criou sua família com os rigores da decência em todos os seus aspectos. Não aprovava o fato de uma moça distinta ser cantora de rádio ou atriz de palco. Mas, Elizeth conviveu com tamanha dificuldade, superando tudo, graças ao seu pai que tocava algum instrumento numa banda de um  subúrbio carioca, levando-a, ainda criança, para atuar ao seu lado, no coreto local. E, depois, levava, coro da mãe muito enérgica, conforme dizia carinhosamente. 

Às quartas-feiras, salvo engano, a extinta TV Itacolomi apresentava, ao vivo, consagrados nomes da nossa música. Para lá, como convidado, fui assistir à apresentação daquela que acabou sendo uma das maiores referências da minha juventude e que tanto me enaltecia, por conhecê-la pessoalmente. 

O estúdio ficava no vigésimo andar do edifício Acaiaca e qual foi a minha surpresa, ao ver descer daquele veloz e assustador elevador, uma mulher de marcante presença. Muitíssimo bem vestida e maquiada como uma "estrela" de Hollywood. Nenhuma semelhança com a mesma pessoa que estava naquele sofazinho, tão simplesmente. Era ela, nas vestes de uma autêntica "diva" da canção deste país. E foi um dos mais significativos momentos de tudo o que vi em toda minha visa. Ela arrebatava, a cada página que empreendia.

Os  anos se sucederam e, para relatar tudo, só mesmo através de um livro de mil páginas. Desta amizade  de que tanto me orgulho, falarei objetivamente, sobre algumas passagens que podem ser apreciáveis...

TEMPOS VIVIDOS...
Recrudesceu-se um vínculo fraternal. Como que, passei a ser integrante da sua família, conhecendo seu filho Paulo Valdez, hoje conceituado médico e dentista, nos braços de quem Elizeth deu seu último suspiro, após delongada enfermidade contra qual ela lutou bravamente, mas perdeu a batalha. 

A única, porque vencedora, no exterior, empunhou a bandeira de honra que acabaria projetando o Brasil em todo o mundo. Tal o seu destaque,dividindo espaço  com sua grande admiradora Sarah Vaughan, das mais consagradas vozes jazísticas de todos os tempos.


ALGUNS MOMENTOS COM A DIVINA
Com frequência, eu ia ao Rio de  Janeiro. Sempre convidado por Elizeth, costumava visitá-la, inicialmente, num apartamento   da rua Voluntários da Pátria (Botafogo) e, posteriormente, na Senador Euzébio, no Flamengo, participando das suas festas de passagem de ano. Foi, então, que pude conviver com outros ícones da MPB, tais como o aludido Vinícius de Moraes, Toquinho, Baden Powell, Alaíde Costa, Sérgio Bittencourt, Pery Ribeiro, Nelson do Cavaquinho, dentre tantos que se confraternizavam naqueles festivos encontros.

Certa vez, numa inesquecível viagem pelo trem "Vera Cruz"do Rio para Beagá - sem dúvida o melhor transporte de que o Brasil deveria se orgulhar e, não acabar literalmente com a  nossa ferrovia, das mais portentosas do mundo - a nossa conversa foi noite a dentro numa cabine geminada, muito confortável que não nos deixou sentir o tempo. Foi, então, que Elizeth relatou-me toda sua vida. Uma vida de lutas, desafios, decepções, sofrimentos, mas, coroada de muito êxito resultante de um talento deveras inusitado, estruturado segundo os mais credenciados conhecimentos de como utilizar a voz. 












Falou-me do princípio até aquele momento, em torno de tudo o que conseguiu como intérprete, declinando-se  de vaidades e, até mesmo, dos apostos ao seu nome. "Meiga", "Mulata Maior" e "Divina". Sobretudo o último, a incomodava às vezes. Dizia que nem sempre o artista está no seu melhor momento e que, tanto ufanismo pode prejudicar muito a própria imagem. Na sua contabilidade, o resultado acabou positivo, tendo superado o que não foi bom, através de tantas alegrias amealhadas, falando dos prêmios, das distinções e dos aplausos recebidos; do carinho do público, da imprensa que sempre a destacou.

Enfim, considerando-se bastante contemplada pela graça de Deus, não acreditava que a fama fosse fator de felicidade. Felicidade, para ela, era a música, a família, os amigos e a prática do bem. Aliás,  neste aspecto, foi sempre generosa com as pessoas que carecessem de ajuda dela. Haja vista o que fez por Clara Nunes, também  do convívio de Marilu. Eu a conheci, ainda operária de uma fábrica de tecidos da Renascença,  quando das vindas de Elizeth que acabou sua madrinha.

Sem dúvida "divina", seu repertório, expressado em antológicas gravações, quase todas pela Copacabana-Rio. Moacyr Silva, exímio saxofonista- também conhecido por Bob Fleming - assim como o Zimbo Trio  ou o violonista Rafael Rabelo, dentre tantos, muito contribuíram com acompanhamentos, emoldurando toda beleza da sua voz.

Elizeth, as vezes em que chegou até a hospedar comigo e minha saudosa esposa Zélia, costumava rir muito contando uma viagem que empreendeu com Ademilde Fonseca (exclusiva intérprete de Waldir Azevedo em "Brasileirinho" e" Pedacinhos do Céu"). Refiro-me à festa para qual foram convidadas no palácio de Jacques Fath, nos arredores de Paris. Simplesmente elas se perderam nas dependências do lugar e quase não puderam atuar. Encontraram gente muito estranha, de elevadíssima sofisticação, perambulando  por lá. Sem saber falar o francês, as duas tentaram se virar como puderam. Mas, quando conseguiram mostrar o seu potencial cantando nossa música, foram aplaudidíssimas por ícones como Jean Sablon, Catherine Deneuve, Sophia Loren e o nosso Ivon Cury, ali destacado pelo anfitrião que também se emocionou ouvindo-as.

No Japão, sua turnê foi marcada de tanto sucesso que teve de voltar. De Tóquio, trouxe-me um lindo presente que guardo com carinho: uma estátua de Buda.

A estátua possuía em seu interior um apêndice pontiagudo de cerâmica, em cujo com leve toque do dedo indicador, a vibrava, reproduzindo leve sonoridade de cordas, como que reprodutor do gesto que a estátua possui, ou seja, Buda ao tocar um instrumento de cordas. Infelizmente esta peça interna foi quebrada, "silenciando-o" para todo o sempre... Em 2016 durante visita a uma loja de artigos japoneses em São Paulo, meu filho e neta buscaram uma nova peça, mas infelizmente não lograram êxito...

Devo dizer que a minha aproximação com ela, nada se deve ao meu trabalho jornalístico. Pura empatia! Vinha aqui e logo nos encontrávamos, acompanhando-a nos shows. Zélia, muito solidária, oferecia aquele apoio que as mulheres sabem como fazer. Elizeth, como se pode ver nestas fotos, dentro do meu apartamento, uma pessoa comum, despojada de toda vaidade. Para se apresentar (como  mostra a foto), super produzida, belíssima figura, capaz de magnetizar toda e qualquer platéia.

Certa vez, na Casa do Baile (Pampulha), ali estivemos com ela. Deu um espetáculo inesquecível, presente JK que gostava muito de dançar. Ao final, sem um camarim, fomos para os fundos do prédio, bem próximos da lagoa. Juscelino, entusiasmado, depois de "umas e outras", chegou tão eufórico que quase rolou ribanceira abaixo, não fosse eu segurá-lo pelo braço. Elizeth, aflita, apelava pr'a mim: "Zecarlo (como me chamava) não deixa o presidente cair dentro d'água." Ali ficamos completamente esquecidos pela produção do show e acabamos numa carona de um amigo meu, no mais alto grau etílico!!! Uma epopeia, tragicômica...

Em meados de 1968, retornava a Belo Horizonte e, permanecendo horas e horas em companhia da minha mencionada e saudosa esposa Zélia, todas as noites nós a conduzíamos ao Teatro Clara Nunes (na Imprensa Oficial), em sua última grande temporada nesta cidade, ao lado do Zimbo Trio. Minha mulher, grávida do único filho José Emílio, despertou na notável amiga aquele sentimento maternal, dizendo que aguardava pela vinda da criança que não sabíamos qual o sexo. Ela dizia, por simples diagnóstico que seria homem. Antes de  retornar ao Rio, saiu muito cedo, retornando com presentes à esperada criança. Ela dizia, em contraponto com os médicos que nasceria em novembro. E não errou! Com espírito prático, vendo-nos muito inexperientes, comprou, além de roupinhas, um livro do dr.Delamare, ícone da pediatria no Brasil, pelo qual ensina como se cuidar de recém-nascidos. Como foi útil!

Nos anos 70, quando viajávamos ao Rio de Janeiro também para acompanhar as temporadas líricas de minha irmã, nós a visitávamos em seu luxuoso apartamento no Flamengo. Meu filho, ainda muito pequeno e aprendendo as palavras ( ainda felizmente fora da pedagogia criminosa e abjeta de Paulo Freire...) pronunciava o que lhe vinha à mente e de repente atribuiu um adjetivo jocoso à nossa querida Elizeth, pelo que, de pronto, intervi energicamente... Reconhecido o fato de que uma criança de 4 anos não possui discernimento formado, ela carinhosamente me repreendeu dizendo que não o fizesse - trouxe meu filho em torno de seus braços e lhe ofereceu um salgadinho que surgia naquela época: o "cheetos" de queijo, que muito apreciou... enquanto se desculpava também por ter-lhe derrubado um biombo " sem querer" - aquele sem querer de um menino que não para quieto...

As traquinagens dele, entretanto, não pararam ali... Antes de retornarmos para BH resolvi comprar para ela um terço de contas de jacarandá, idêntico ao que tínhamos em nosso quarto. Uma peça magnífica. Com dificuldade fiz um embrulho de luxo e logo em seguida ele simplesmente o rasgou, entendendo ser um presente, sem perguntar-me... Desta vez, entretanto, o "canto da palmada" entoou mais alto do que a voz carinhosa da Divina..., afinal de contas, para que serve um pai se não educa seu filho? Felizmente naqueles dias livres, seguros e solares dos anos 70, o câncer do "politicamente correto" jazia nos esgotos com seus criadores e de onde jamais deveriam ter saído, diga-se...

Tantos foram os momentos que se torna impraticável mencioná-los nestas páginas.Haverá, seguramente, um livro, no qual falarei das minhas "façanhas" de que tanto me orgulho.

A razão de se gravar "Chão de Estrelas", (considerada " Sílvio Caldas de saias"), Elizeth foi chamada a dar um apoio ao autor da letra Orestes Barbosa, que atravessava difíceis momentos. Com total predisposição,destinando tudo o que pudesse amealhar com a mais aclamada das suas gravações,juntamente com o referido intérprete e compositor da antológica música, acabou se consagrando. A partir de então, sua carreira que assumia proporções admiráveis, alçou impressionante vôo no Brasil e no mundo. Ela comentava o fato, dizendo-se absolutamente premiada por haver podido dar a mão ao genial poeta.








Em minha residência, em Belo Horizonte, MG, no ano de 1976 recebi Elizeth e sua inseparável apoiadora Lourdes, conforme podemos observar, da esquerda, acima, para a direita, abaixo:

No sofá: meu pai, o maestro Francisco Buzelin; Elizeth;
minha sobrinha Marília; eu; Lourdes; e minha falecida esposa, Zélia.

Em nossa varanda, eu e Elizeth;
Ainda havia um belo horizonte, hoje tomado por prédios infindáveis... 

Elizeth, minha esposa Zélia com minha sobrinha, Marília e José Emílio; ladeado pelo meu pai, Francisco Buzelin;
 
Zélia; Elizeth; eu e Lourdes, em foto para a posteridade, pouco antes da apresentação na Casa do Baile, conforme cito.


         


https://www.youtube.com/watch?v=eqh4ZEtuDp0

quinta-feira, 25 de maio de 2017

TERESA BERGANZA A MAIS ACLAMADA INTÉRPRETE DE "CARMEN" DOS ÚLTIMOS ANOS, NO MUNDO!


Dos mais honrosos momentos da minha vida como jornalista, foi estar ao lado de Teresa Berganza,a mais aclamada intérprete da ópera "Carmen" de Bizet  dos últimos tempos.Em Belo Horizonte, quando aqui esteve pela Dell'Arte(pelos anos de 1990), Myrian Dauelsberg, presidente da entidade, solicitou -me que a acompanhasse .

Então, partimos para Ouro Preto.Ela que me parecia nunca haver comido couve, acabou "devorando" uma porção imensa da verdura ,o que resultou num mal estar inevitável. Naquele mesmo dia, deu recital no Teatro Sesiminas, tendo no repertório "As Sete Canções" de Manuel de Falla,além de algumas árias de ópera.Um sucesso!

La Berganza, durante a viagem, conversou muito comigo sobre a sua vida, mencionando a poderosa contribuição e o incentivo que recebeu de Maria Callas, que acabou sua amiga e confidente.Teria sido, Berganza,sem dúvida,testemunha da imensa dor afetiva que assolava o coração da emblemática cantora e atriz, em relação ao seu conhecido relacionamento com o armador grego Onassis..Comentou muito comovida, sobre a misteriosa morte de Callas, em Paris deixando sua mansão de qualquer jeito, nas Ilhas Gregas, onde viveu com o grande amor da sua vida.

A foto registra curioso fato: ela havia comido e bebido muito, quando a homenageada de boa têmpera hispânica, fazendo jus as suas origens sevilhanas,assentou-se, repentinamente, sem que eu me apercebesse, sobre a minha mão direita que estava apoiada no sofá ao lado.Já se pode imaginar qual foi o meu aperto! Chamei, sem que ela percebesse a Myrian-anfitriã daquela festa em seu apartamento no Parque Guinle (Rio)-,  pedindo-lhe que chamasse Teresa , para ver alguma coisa.Foi, então que me salvei daquela situação.Imaginem vocês se eu, sequer, mexesse a mão que acabou dormente, quase anestesiada.Coisa que chega a ser hilária, porém...dramática!!!

quarta-feira, 24 de maio de 2017

MYRIAN DAUELSBERG - A FORÇA MOTRIZ DA DIVULGAÇÃO DA MÚSICA ERUDITA (ENTREVISTA A LAURO GOMES)

A emoção bateu forte, enquanto o coração se regozijava de prazer e até uma dor de estômago cedeu agruras ao bem estar.Ao bem estar de estar bem,De me sentir revalidado, como se fora, até então, um bilhete corrido,diante das inconsequências pelas quais atravessa o nosso país.Em que a grosseria assume o lugar da lhaneza,da estética, da ética e da etiqueta. Não há sequer um momento  em que os meios de comunicação disponham de espaços para a elevação da condição humana.Sobretudo do espírito que monitora a mente. A inteligência parece ceder lugar à incoerência, à ilogicidade, ao grotesco, com propostas destrutivas, do terror que invade valores sedimentados pela educação e cultura.Valores históricos destituídos de memória que os preserve, fazendo valer o "vale tudo",deformando a prudência, o raciocínio, enfim, a própria vida.

Mas , repito, a  emoção bateu forte ao me deparar com uma das grandiloquentes entrevistas empreendidas por Lauro Gomes, postadas também neste blog que dá início a um novo e fascinante recomeçar da minha peregrinação,até então jornalística, superada pela modernidade e eficácia da rede social. E, assim, o faço, com maior amplitude, lembrando das editorações da imprensa escrita, tão limitadas pela mais cáustica da imposições: a diagramação contemplando o exato número de caracteres, etc. etc..

Havia ontem,encontrado Bidu Sayão falando para o referido comunicador.Algo de supremo valor, em que a eterna "diva" pátria, reportando-se a sua vida e carreira, arrebatou-me ao desafio para superar obstáculos e continuar sem  quaisquer desânimo, a construir a missão que adoto por amor: falar da música e seus agentes, em primeiro lugar.

Agora, reencontro Myrian Dauelsberg, amiga que guardo  na alma, mediante respeito e admiração. Admiração que não imaginava que pudesse ser maior.Aliás, mensurar sentimento é força de expressão, porque ninguém pode amar "muito". O amor, como a amizade e a admiração não dependem de superlativos ou diminutivos. São, ou não são, como o "to be or not to be" shakespeariano. Em suma, ali estava Myrian, tão ela mesma, plena de delicado sentimento humanitário e portentosa de suas convicções realizadoras. Mestra, acima de tudo, não apenas forma pianistas, mas, seres humanos dotados de talento.Do dom de Deus, sem o qual, impossível  seria a execução do instrumento que ela domina de maneira irretocável.

Óbvio que sua grande contribuição ao cultivo, ao culto e à divulgação da música erudita,chega antes como uma bandeira vitoriosa empunhada por um ideal exclusivo,absoluto. Nada menos que magnífico, definitivamente impregnado na consciência de um povo. Falo da Dell'Arte que atuou em Belo Horizonte pela década de l990, em que pude conhecer pessoalmente essa digna criatura, de infinitas realizações que aponto insuperáveis. Até hoje  não sou capaz de entender a razão pela qual esta cidade perdeu a chance de elevadíssima condição à aculturação.Por que? Insisto em perguntar!

Minha amizade com ela perdura.Vez por outra, trocamos conversa telefônica, enquanto a lembrança ( imorredoura lembrança) da sua mãezinha, saudosa e consagrada violinista Mariuccia Iacovino,chega como bálsamo.Devo dizer do carinho que sempre dedicou-me , em absoluta reciprocidade.Da minha parte, mais que simples carinho,a veneração que um artista merece quando consegue arrebatar. Tive o privilégio de assistir a um recital que ela deu no Conservatório , aqui em Belo Horizonte, empunhando com jovial energia o violino, numa execução bachiana de realçada complexidade.Vencedora como se saiu, foi ovacionada.Subi ao palco e não medi palavras para gritar hosanas...

Por  atavismo, consequentemente, Myrian fala de maneira tão singela,emoldurada de carisma que é a sua eterna referência.Mulher elegante,de marcante beleza que jamais se deprecia, simplesmente porque sua personalidade empreendedora é a marca que define um caráter honrado, de sentimento religioso em todo momento proclamado, para a glória de Deus.

Nesta caminhada, vencendo intempéries num país que pouco ou nada valoriza a cultura,mormente a música erudita,  Lauro Gomes consegue sobrepor-se a tudo isto; deriva seus caminhos, mas, jamais perde a direção.E, assim, consegue levar avante seu ideal.Digno de aplausos e estes os faço de pé!
                   
                     

terça-feira, 23 de maio de 2017

ÚLTIMO PROGRAMA - RÁDIO MINISTÉRIO - MEC - RIO DE JANEIRO, RJ - PROGRAMA LAURO GOMES -1 17/10/2013


https://soundcloud.com/buzelin-j-emilio/mhb-entrevista-15-10



O programa conduzido pelo eminente jornalista Lauro Gomes encerrara ali depois de décadas de radiodifusão pela Rádio Ministério e Educação.

O último programa foi esta entrevista levada ao ar em dezembro de 2013 e produzida em outubro do mesmo ano.


O RETORNO        Parafraseando o poeta, "depois de um longo e tenebroso inverno..." retorno a este    blogger, inspirado que sou p...